Cinema: Pureza, filme sobre trabalho escravo chega aos cinemas

O filme se passa na cidade de Bacabal, a 246 quilômetros de São Luís, no Maranhão e é baseado na história real de Pureza Lopes Loyola que, durante três anos, desafiou todos os perigos para encontrar seu filho e se tornou um símbolo do combate ao trabalho escravo, chega aos cinemas no dia 19/05.

Sinopse

Pureza (Dira Paes) é uma mãe batalhadora que sofre após seu filho Abel (Matheus Abreu) desaparecer em meio ao garimpo da Amazônia.

Ela decide partir em uma jornada para procurar o jovem. Após conseguir trabalho em uma fazenda, ela descobre um sistema de aliciamento e cárcere de trabalhadores rurais.

Escapa e denuncia os fatos às autoridades federais. Sem credibilidade e lutando contra um sistema forte e perverso, ela retorna à floresta para registrar provas.​

Crítica

No ano em que a Lei Áurea completa 134 anos, Pureza mostra que o trabalho escravo nunca acabou no Brasil. O longa se passa nos anos 90 e infelizmente, por causa do atual Governo, houve um grande retrocesso no combate a esse problema tão grave, o que torna Pureza um filme longe ser datado.

O grande destaque do filme é Dira Paes que transborda talento, mesmo com um roteiro problemático. Não tem como, não se apegar a essa mãe, principalmente na cena final do reencontro com seu filho que é pura emoção. Dira é impecável na composição do sotaque, da linguagem corporal, do olhar e o texto fica bem orgânico na fala da atriz, o que não acontece com alguns outros atores do filme.

Com o apoio da CPT, fez contatos com o Ministério do Trabalho e o Ministério Público do Trabalho no Maranhão, no Pará e em Brasília. E ainda, escreveu cartas para três presidentes da República: Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso (o único a responder foi Itamar).

Era óbvio que uma história de vida forte como a de Pureza Lopes Loiola se tornaria uma narrativa cinematográfica. Rodado em locações reais, como Bacabal e Marabá, apresentando a história de trabalhadores que viveram a experiência do cativeiro, Pureza, apesar de ser um bom trabalho não entrega tudo que promete.

A simplificação do enredo incomoda, entendo a construção de personagens muito bondosos lutando contra um sistema muito malvado. A história é real, a personagem existe, mas os fatos aconteceram daquela forma? A protagonista tem muitas qualidades, mas quais foram os indícios de que o filho Abel (Matheus Abreu) estava de fato preso em uma fazenda, escravizado pelos proprietários? Pureza aposta nos seus super sentidos (“Estou sentindo um aperto em meu coração”) ao abandonar sua casa em busca do filho. Aliás ela não tem familiares, amigos e nem interesses amorosos? Outro fator negativo é o atropelamento de alguns acontecimentos, o que deixa o enredo raso quando deveria se aprofundar em algumas situações. O que simplifica uma trajetória extremamente complexa.

Todo o sofrimento de Pureza foi pouco explorado, as situações se resolvem muito rapidamente, os relacionamentos não são aprofundados. Isso tudo tenta ser recompensado pela trilha sonora que carrega vários momentos da narrativa, ou seja, a trilha procura garantir sozinha que o público sinta as emoções de cada situação. O que é uma pena, pois essa história poderia ter muita mais força narrativa no cinema.

Pureza também conta com boas participações como a do grande ator e preparador de elenco Cláudio Barros que vive o padre, fiel escudeiro da heroína, assim como Mariana Nunes que dá vida a uma fiscal do trabalho aguerrida.

O longa tem a direção de Renato Barbieri que assina o roteiro junto a Marcus Ligocki. E chegou a vencer o Prêmio Antiescravidão com a mensagem do filme, oferecido pela Anti-Slavery International, uma organização não-governamental internacional. No Inffinito Film Festival de Miami e NY, levou a categoria técnica de fotografia enquanto Dira Paes garantiu merecidamente a estatueta de Melhor Atriz, feito que foi repetido também no Seattle Latino Film Festival. Além disso, entrou na disputa para concorrer ao Oscar 2021 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Pureza também já ganhou o prêmio de Melhor Filme pelo júri popular Mercosul no FAM 2020 e o Grande Prêmio do Público no Rencontres du Cinema Sud-Américain na França.

Posso dizer que no final da sessão, fica a sensação de ter visto um bom filme. Que é uma história que merece ser conhecida, pois convida o mundo a olhar para a Amazônia e suas mães guerreiras que lutam por tantos filhos subjugados pelo poder do capital que escraviza e mata, assim como Pureza o fez.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s