QUANDO O PET VIRA ALVO: UM SINAL SILENCIOSO DE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, a psicóloga Juliana Sato alerta para um padrão pouco discutido nas relações abusivas: o uso do animal de estimação como instrumento de controle, coerção e intimidação dentro de casa.
 

No Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, a discussão sobre violência doméstica costuma ganhar espaço. Porém, nem sempre todos os seus sinais são reconhecidos. Entre eles, há um aspecto ainda pouco debatido: quando o animal de estimação se torna alvo de tensão, crítica ou ameaça dentro da relação. O que pode parecer, à primeira vista, um simples conflito de convivência, em alguns contextos revela padrões de controle, desqualificação e coerção que atingem a mulher por meio de um vínculo afetivo que ela não deseja (ou nã o consegue) romper.

Preferência por animais de estimação não define caráter nem funciona, por si só, como marcador de personalidade. Há motivos legítimos para manter distância de pets, como alergias, fobias, experiências negativas anteriores, valores familiares ou limites pessoais. O que realmente merece atenção é a forma como essa preferência aparece na convivência, sobretudo quando há uma relação afetiva em que o animal já ocupa um lugar importante, porque é nesse ponto que se torna possível observar se existe respeito pelo que é valioso para o outro e se há disposição para construir uma vida em comum sem transformar diferenças em disputa.

No cotidiano doméstico, o pet costuma ocupar um espaço que mistura rotina e vínculo; para muita gente, não se trata de um detalhe da casa, mas de uma presença que atravessa a história pessoal e participa da organização emocional da vida. Quando o parceiro não tem afinidade com animais, isso pode ser administrado com maturidade, desde que a convivência se estabeleça com acordos claros e reconhecimento mútuo do que cada um considera essencial. A tensão começa quando a presença do animal passa a alterar o clima do lar, e o vínculo, em vez de ser respeitado como parte da vida de quem o trouxe, passa a ser tratado como exagero ou inconveniência, criando um cenário em que o responsável pelo pet se vê, aos poucos, cedendo mais do q ue gostaria para evitar conflito.

É nesse momento que o assunto deixa de ser gosto pessoal e passa a revelar padrões relacionais. Quando o pet vira palco de conflito, o que aparece com frequência é a dificuldade de sustentar o lugar do outro dentro da relação, como se a convivência só fosse “permitida” quando o parceiro passa a editar a própria rotina para não desagradar quem precisa comandar o ambiente. A situação se torna mais delicada quando surgem desqualificações, tentativas de impor regras não combinadas ou atitudes que transformam cuidado em motivo de crítica, porque isso já não diz respeito ao animal, mas à forma como aquela relação lida com limites e autonomia.

Esse ponto ganha outra dimensão quando entram em cena comportamentos de coerção. Em contextos de violência doméstica, ameaças ou agressões contra animais podem ser usadas como forma indireta de controle, atingindo a pessoa por meio de um vínculo que ela não quer, ou não consegue, abandonar. A literatura que discute a chamada Teoria do Elo observa que maus-tratos contra animais podem funcionar como sinal de alerta para outras violências dentro de casa, inclusive contra mulheres, o que exige atenção quando o animal é intimidado, negligenciado ou ferido, já que nessas situações o problema deixa de ser apenas doméstico e passa a envolver risco.

Não gostar de animais pode ser apenas preferência; o alerta aparece quando isso vem junto de desprezo pelo seu vínculo e pressão para você ceder, porque esse padrão raramente fica restrito ao pet e tende a invadir outras áreas da vida, justamente aquelas em que você precisaria ser tratada com consideração. Quando o vínculo com o pet vira alvo, o que está em jogo não é o animal em si, mas a forma como aquela relação decide quem pode existir com autonomia e quem precisa se adaptar para manter a paz.

Em casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos, a denúncia pode ser feita pelo Disque 181, pela Polícia Militar no 190 em situações de flagrante, diretamente em uma Delegacia de Polícia ou por meio das delegacias eletrônicas estaduais, além dos canais do Ministério Público e dos serviços municipais de proteção animal ou zoonoses.

Sobre Juliana Sato

Psicóloga graduada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo, com pós-graduação em Distúrbios Alimentares pela Unifesp, Juliana Sato é certificada pela renomada Association for Pet Loss and Bereavement, entidade pioneira e referência em luto pet nos Estados Unidos. A especialista vem se destacando desde 2023 em consultoria e atendimento em saúde mental de profissionais do segmento pet vet, além de mentorias para empresas e líderes na construção de culturas organizacionais mais humanas, seguras e sustentáveis. Desde 2024, faz parte da diretoria da Ekôa Vet – Associação Brasileira em Prol da Saúde Mental na Medicina Veterinária. Para ajudar pessoas que buscam equilíbrio emocional e crescimen to pessoal, criou o canal VibeZenCast, no qual compartilha conteúdos sobre saúde mental, autocuidado e bem-estar. Juliana também é uma das organizadoras do recém-lançado livro “Luto Pet no Contexto da Medicina Veterinária”, pela Editora Lucto, onde aborda a complexidade do assunto e debate a saúde mental no universo pet. Saiba mais acessando o site julianasatopsicologa.com.br ou o perfil no Instagram @jusatopsicologa.

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