News: O que a Data Magna ainda não resolveu

No Ceará, a abolição costuma ser lembrada como marco de pioneirismo. A literatura pode servir para perguntar o que, apesar dela, continua de pé.

Maurício Mendes

Todo 25 de março devolve ao Ceará uma imagem de si mesmo: a da província que aboliu a escravidão antes do restante do país. A data merece, sem dúvida, ser lembrada. Mas uma data histórica não serve apenas para celebrar um feito. Serve também para medir a distância entre o que foi conquistado na lei e o que permanece agindo na vida social.

O risco das efemérides é produzir conforto. A comemoração organiza os fatos, distribui dignidades e oferece a sensação de que o passado, uma vez homenageado, absolve o presente. Só que a vida coletiva raramente se acomoda tão bem a esse tipo de arranjo. A lei pode mudar sem que a estrutura desapareça. A linguagem pública pode se refinar sem que a violência perca eficácia. Em muitos casos, ela apenas aprende novas formas de circulação.

Talvez uma das funções da literatura seja justamente atrapalhar esse repouso. Não para corrigir a história, mas para devolver a ela atritos que a celebração oficial tende a suavizar. Um romance não substitui o arquivo nem a historiografia. O que ele pode fazer é outra coisa: mostrar como forças históricas e coletivas se depositam em corpos, vozes, gestos, ambições e humilhações. Mostrar, em escala íntima, o que a fórmula pública costuma esconder.

Foi desse incômodo que nasceu O homem não foi feito para ser feliz. O romance acompanha Germano, um médico pardo em ascensão social, alguém que conquistou prestígio profissional, repertório, linguagem e posição. Ainda assim, segue exposto a mecanismos de desqualificação que não desaparecem diante do diploma, do jaleco ou do esforço individual. Ele conhece por dentro a pedagogia do ajuste: a necessidade de se apresentar de modo impecável, de se antecipar ao olhar do outro, de administrar a própria presença para reduzir a margem de suspeita.

O livro parte dessa fricção. A mobilidade social altera a superfície da vida, mas não revoga automaticamente a hierarquia racial que organiza o espaço brasileiro. Em vez de libertar por completo, muitas vezes ela impõe novas formas de vigilância. O personagem que ‘venceu’ continua precisando provar, explicar, compensar. Continua tendo de ler a sala antes de entrar nela. Continua sabendo que o reconhecimento pode ser provisório, condicional, reversível.

Num estado como o Ceará, essa tensão ganha uma camada a mais. A memória da abolição pioneira convive com formas persistentes de apagamento, desigualdade e recodificação da violência racial. Não se trata de diminuir a importância do 25 de março. Ao contrário. Trata-se de recusar que a grandeza histórica da data seja convertida em autoelogio. Uma data como essa só continua viva quando preserva a capacidade de interrogar o presente.

Talvez o ponto mais difícil, quando se fala de racismo estrutural, seja este: muita gente só reconhece a violência quando ela aparece de modo brutal, explícito, escancarado. Mas a experiência cotidiana ensina outra coisa. A violência também opera por rebaixamentos discretos, por desconfiança reiterada, por redistribuição desigual de legitimidade, por constrangimentos que parecem pequenos quando vistos isoladamente e devastadores quando se acumulam. Ela muda de tom, muda de roupa, muda de sintaxe. Nem por isso perde força.

A literatura tem um modo próprio de tornar isso visível. Pode mostrar que a injustiça nem sempre chega anunciada; muitas vezes, ela se instala nos protocolos da normalidade. Pode mostrar também que a ascensão social, tão celebrada pelo imaginário meritocrático, cobra pedágios íntimos altos: vigilância constante, adaptação exaustiva, negociação permanente com espaços que acolhem e recusam ao mesmo tempo. O personagem que parece integrado segue, não raro, tendo de explicar a si mesmo por que a vitória lhe soa insuficiente.

Escrever sobre a Data Magna a partir desse ângulo não é negar seu valor histórico. É tentar preservá-lo de um uso decorativo. Se o 25 de março ainda importa, importa porque continua a nos obrigar a pensar. Importa porque não autoriza descanso. Importa porque seu verdadeiro alcance não está em permitir que o Ceará se admire, mas em exigir que o Ceará se examine.

Entre a celebração e o esquecimento, talvez haja um terceiro caminho: o da leitura crítica. Lembrar a abolição, hoje, não deveria significar encerrar o assunto, e sim reabri-lo à altura do presente. A literatura, quando faz o que pode, ajuda justamente nisso. Não oferece absolvição retrospectiva. Oferece linguagem para nomear o que persiste.

*Maurício Mendes é médico especialista em Medicina Nuclear e escritor. Nasceu em Fortaleza (CE) e passou parte da infância no interior do estado e no Maranhão. Autor do romance “O homem não foi feito para ser feliz” (Mondru), explora em sua obra temas como deslocamento, masculinidade, racismo estrutural e angústias existenciais contemporâneas.

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