
Vinte anos depois, a passarela de Milão parece ter encolhido. O retorno de Miranda Priestly e Andy Sachs em O Diabo Veste Prada 2 chegou cercado de expectativas, mas o resultado final assemelha-se mais a uma coleção de “fast fashion”: visualmente atraente à primeira vista, mas com costuras frágeis e um material que se desgasta na primeira lavagem.
Entre o Deleite e o Desnecessário
É preciso dar o braço a torcer: o filme diverte. Há um prazer inegável em revisitar esse universo, sentir o peso do olhar de Miranda e mergulhar no luxo da alta costura novamente. Para quem busca entretenimento leve, ele cumpre o papel de “comfort movie” com louvor. Contudo, ao subirem os créditos, a sensação é de que esta sequência não era necessária. É como uma sobremesa extra pedida por impulso: satisfaz no momento, mas não acrescenta nada à refeição principal que já estava completa.
O Cansaço da Repetição: O Mesmo Look, Outra Cidade
O maior pecado do roteiro é a falta de originalidade, optando por repetir fórmulas que, após 20 anos, já perderam o frescor.
• Geografia Diferente, Mesma Ideia: A icônica montagem de transição de tempo, com a troca rápida de figurinos enquanto a protagonista caminha, está de volta. A única diferença é o CEP: trocamos as calçadas de Nova York pelas ruas de Milão. Embora o cenário italiano seja deslumbrante, o recurso soa datado e preguiçoso.
• Som e Tensão: A trilha tenta replicar o nervosismo rítmico do original, mas soa como um eco. Nem mesmo a adição de uma música inédita de Lady Gaga para um evento importante da Runway consegue mascarar a falta de inovação. A canção é potente, mas serve apenas como um acessório de luxo para esconder um roteiro sem fôlego.
Personagens “Acessórios” e o Desperdício de Talento
Se no primeiro filme os coadjuvantes eram essenciais para o tom da narrativa, nesta sequência o elenco secundário foi reduzido a meros objetos de cena.
“Eles são como aquele broche caro que você coloca na lapela: visualmente bonito, mas se você o remover, a estrutura do casaco permanece exatamente a mesma.”
Os novos colegas e assistentes não possuem camadas ou propósito real. São perfeitamente descartáveis e poderiam ser “retirados do look” sem que a trama sofresse qualquer alteração.
O Estancamento de Andy e a Amargura de Miranda
A dinâmica entre as protagonistas sofre com a falta de evolução. Miranda Priestly ressurge ainda mais amarga — uma progressão natural e esperada para a personagem —, mas Andy Sachs é a grande decepção.
Após 20 anos de experiência, esperava-se encontrar uma Andy mais segura, forte e independente. Em vez disso, encontramos a mesma pessoa de antes.
Se no primeiro filme os coadjuvantes eram essenciais para o tom da narrativa, nesta sequência o elenco secundário foi reduzido a meros objetos de cena.

Andy parece presa em um loop temporal. Sua falta de evolução como indivíduo prova que, embora o figurino tenha mudado para o luxo milanês, sua essência continua fora de moda.
Veredito
O Diabo Veste Prada 2 é uma experiência visualmente rica que diverte pela memória afetiva, mas falha como cinema analítico. Ao tentar mimetizar o sucesso de duas décadas atrás sem injetar riscos ou maturidade em sua protagonista, o longa torna-se uma peça de brechó: tem seu valor nostálgico, mas claramente já não serve mais para o corpo da mulher moderna que Andy Sachs deveria ter se tornado.