
No dia 16 de maio, é celebrado o Dia Mundial da Doença Celíaca, uma data importante para ampliar a conscientização sobre essa condição autoimune que ainda permanece amplamente subdiagnosticada no Brasil. Estimativas indicam que cerca de 80% das pessoas com a doença desconhecem o diagnóstico e convivem, por anos, com sintomas silenciosos ou frequentemente confundidos com outros problemas de saúde.
Prevalência
A prevalência da doença celíaca (DC) é estimada em cerca de 1% da população mundial, o equivalente a aproximadamente 1 caso a cada 100 pessoas.
O que é a doença celíaca
A doença celíaca (DC) é uma doença autoimune caracterizada por alterações sorológicas e histológicas desencadeadas pela ingestão de glúten em indivíduos geneticamente predispostos. É uma condição na qual ocorre atrofia vilositária parcial ou completa e hiperplasia das criptas, levando à má absorção de nutrientes. Essa atrofia é causada pela presença do glúten, que ativa mecanismos imunológicos.
O que é glúten
O glúten é o termo utilizado para descrever proteínas presentes em cereais como trigo, centeio e cevada, incluindo gliadina, secalina e hordeína, responsáveis por desencadear a resposta imunológica na Doença Celíaca.
Diagnóstico
O diagnóstico da Doença Celíaca é realizado por meio da combinação de testes sorológicos e avaliação da mucosa intestinal. Entre os principais
exames laboratoriais estão os anticorpos anti-transglutaminase tecidual (anti-tTG), antiendomísio (EMA) e antipeptídeo de gliadina desamidada (DGP). Em muitos casos, a investigação também inclui biópsia duodenal
Diferença entre doença celíaca, sensibilidade ao glúten e alergia ao trigo
A doença celíaca não deve ser confundida com a sensibilidade ao glúten não celíaca ou com a alergia ao trigo. Na doença celíaca, ocorre uma resposta autoimune que provoca inflamação e lesão da mucosa intestinal após a ingestão de glúten. Já na sensibilidade ao glúten não celíaca, os sintomas podem ser semelhantes, mas sem as alterações autoimunes e intestinais características da doença celíaca.
A alergia ao trigo, por sua vez, envolve uma resposta alérgica mediada pelo sistema imunológico e pode causar manifestações respiratórias, cutâneas ou gastrointestinais logo após a exposição ao alimento.
Sintomas
A condição pode se manifestar por sintomas gastrointestinais, como diarreia, má absorção, dor e distensão abdominal, inchaço, vômitos e perda de peso.
Além das manifestações digestivas, a Doença Celíaca também pode estar associada a manifestações extraintestinais, incluindo dermatite, anemia ferropriva, osteopenia e osteoporose, deficiências nutricionais, enxaquecas, fadiga crônica, epilepsia, depressão, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), dores articulares, infertilidade, abortos espontâneos recorrentes, atraso puberal, déficit de crescimento, alterações no esmalte dentário, alterações da função hepática e aumento do risco de alguns tipos de câncer.
Tratamento
O tratamento baseia-se na adesão rigorosa e permanente à dieta sem glúten, o que inclui a exclusão de alimentos preparados com trigo, centeio e cevada, presentes em produtos como pães, massas, bolos, biscoitos, pizzas e diversos alimentos industrializados. A retirada do glúten da alimentação é fundamental para controlar a inflamação intestinal, promover a recuperação da mucosa e reduzir o risco de complicações relacionadas à Doença Celíaca.
Além da dieta, muitos pacientes podem necessitar de acompanhamento nutricional individualizado, especialmente na presença de sintomas persistentes, deficiências nutricionais ou manifestações extraintestinais. O monitoramento clínico e nutricional é importante para prevenção e manejo de alterações frequentemente observadas na doença, como anemia por deficiência de ferro, deficiência de cálcio, folato (vitamina B9) e vitamina B12, osteopenia, osteoporose, alterações neurológicas, infertilidade e manifestações dermatológicas.
Em casos mais complexos, como na doença celíaca refratária, pode ser necessário o uso de corticosteroides ou imunossupressores sob acompanhamento médico especializado.
Predisposição genética e familiar
A DC também possui forte componente genético. Pessoas com familiares de primeiro grau diagnosticados apresentam risco aumentado para desenvolver a condição e, em muitos casos, podem necessitar de investigação mesmo sem sintomas evidentes.
Contaminação cruzada
Mesmo pequenas quantidades de glúten podem desencadear inflamação intestinal em pessoas com a condição. Por isso, além da restrição alimentar, é fundamental atenção à chamada contaminação cruzada quando preparações adequadas para celíacos entram em contato com superfícies, utensílios ou resíduos contaminados,
Na prática, isso envolve cuidados com tábuas de corte, torradeiras e formas utilizadas no preparo de alimentos com farinha de trigo, além de atenção redobrada à higienização de superfícies e esponjas de pia.
Em restaurantes, mesmo quando a preparação não contém ingredientes com glúten, pode haver contaminação durante o preparo. Em pizzarias e padarias, por exemplo, partículas de farinha de trigo podem permanecer suspensas no ambiente e contaminar alimentos preparados com farinha sem glúten. Em alguns casos, mesmo pequenas partículas podem ser suficientes para desencadear resposta inflamatória.
Por isso, o tratamento da Doença Celíaca vai muito além da simples exclusão de pães e massas da alimentação, envolvendo cuidados rigorosos com segurança alimentar, leitura de rótulos, higiene de utensílios e superfícies, armazenamento e preparo adequados dos alimentos, além da prevenção da contaminação cruzada.
Escrita por:
Adriana Stavro – Nutricionista Mestre pelo Centro Universitário São Camilo
Curso de formação em Medicina do Estilo de Vida pela Universidade de Harvard Medical School
Especialista em Doenças Crônicas não Transmissíveis (DCNT) pelo Hospital Israelita Albert Einstein
Pós-graduada em Nutrição Clínica Funcional pelo Instituto Valéria Pascoal (VP) Pós-graduada EM Fitoterapia pela Courses4U.
Instagram – @nutriadrianastavro – Mais informações https://lattes.cnpq.br/