Crítica: Medida Provisória

Uma das grandes mentiras contadas no Brasil é dizer que não existe racismo aqui, para tentar diminuir o sofrimento que milhões de afrobrasileiros carregam desde que foram escravizados pela nossa sociedade. Que aliás, nunca suportou conviver com negros livres, algo que dura até os dias atuais. E para tentar solucionar esse problema, adotou uma política de branqueamento da população e lhes negou acesso a qualquer projeto de inserção social e econômica. Sem falar no incentivo à imigração europeia, na esperança de que a população negra desaparece, por causa da miscigenação entre brancos e negros.

Os negros no Brasil sempre foram vistos como um fator de atraso, por serem considerados inferiores intelectualmente, mesmo depois de sua extensa contribuição para a nossa cultura e economia.

E se nada disso funcionar? Que tal uma política de “devolução” dos negros aos países africanos? Esta ideia absurda é justamente o tema do filme de Lázaro Ramos, que faz sua estreia como diretor no longa Medida Provisória, cuja a pré-estreia foi disputadíssima no Festival do Rio 2021 e finalmente chega aos cinemas hoje (14), apesar das tentativas de embargo.

Sinopse

Em um futuro distópico, o governo brasileiro decreta uma medida provisória, em uma iniciativa de reparação pelo passado escravocrata, provocando uma reação no Congresso Nacional. O Congresso então aprova uma medida que obriga os cidadãos negros a migrarem para a África na intenção de retornar a suas origens. Sua aprovação afeta diretamente a vida do casal formado pela médica Capitú (Taís Araújo) e pelo advogado Antonio (Alfred Enoch / How to Get Away With Murder e Harry Potter), bem como a de seu primo, o jornalista André (Seu Jorge), que mora com eles no mesmo apartamento. Nesse apartamento, as personagens debatem questões sociais e raciais, além de compartilharem anseios que envolvem a mudança de país. Vendo-se no centro do terror e separados por força das circunstâncias, o casal não sabe se conseguirá se reencontrar. O longa é uma adaptação de “Namíbia, Não!”, peça de Aldri Anunciação que o diretor e ator Lázaro Ramos dirigiu para o teatro em 2011.

Crítica

Lázaro Ramos é um dos nomes mais talentosos de sua geração, sendo responsável por personagens inesquecíveis, e como diretor, não decepcionou. Seu longa aborda um tema seríssimo e infelizmente atual, de maneira intensa e verdadeira. Mostrando de forma bem didática que por mais absurdo que seja, esta medida provisória seria bem aceita por boa parte da nossa sociedade nos dias de hoje.

Além disso, o discurso racial da obra é muito importante, principalmente por trazer diversos níveis de debates e conscientização para o racismo estrutural que molda nosso país há 522 anos, inclusive cutucando e criticando certas organizações que censuraram o filme, como fizeram com outros trabalhos. Isso é feito através de atuações comoventes de um super elenco composto por grandes referências negras da atualidade, como Lua Xavier, Hilton Cobra, Emicida, Jéssica Ellen, Diva Guimarães, entre outros, e que conta ainda com Renata Sorrah e Adriana Esteves. Aliás, o elenco é um dos grandes destaques do filme!

Porém, apesar de todos os pontos positivos do filme, a forma como tratou a temática é rasa. As críticas são brandas, para um filme que se vende como radical. Senti falta de mostrar por exemplo, o que aconteceria com a cadeia produtiva se metade da população deixasse o país? Sem falar na facilidade de capturar pessoas não brancas em um país de maioria negra! Mas, apesar dos problemas do roteiro em encaixar determinadas situações, o resultado é bom. Outro ponto positivo de Medida Provisória é a representatividade, pois é o filme brasileiro com maior número de pessoas negras na frente e atrás das telas.

Este é um filme paradoxal, pois te emociona, mas faz você se revoltar ao mesmo tempo; é um terror que te faz ri; não é perfeito, mas vale a ida ao cinema!

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