Tecnologia: Vídeos criados por inteligência artificial ganham espaço na publicidade, mas levantam debate sobre confiança e autenticidade das marcas

Especialista alerta que a tecnologia deve ser usada para potencializar a criatividade, sem substituir a verdade e a conexão humana com o público.

A inteligência artificial revolucionou a produção de conteúdo e já é capaz de criar vídeos publicitários completos em poucos minutos, com imagens hiper-realistas, vozes sintéticas e personagens gerados digitalmente. O avanço da tecnologia tem reduzido custos e acelerado processos, mas também acendeu um alerta entre especialistas em comunicação e marketing: até que ponto o público confia em conteúdos que não representam a realidade?

Em um cenário em que consumidores valorizam cada vez mais transparência e autenticidade, marcas que utilizam inteligência artificial sem critérios podem comprometer sua credibilidade. A facilidade para produzir vídeos extremamente realistas também amplia o risco de desinformação, manipulação de imagens e perda da confiança do consumidor. Um levantamento da Klaviyo aponta que apenas 13% dos consumidores afirmam confiar plenamente em conteúdos gerados por inteligência artificial, enquanto 32% dizem confiar menos em marcas que utilizam esse tipo de recurso em suas campanhas, reforçando que a tecnologia deve ser utilizada para apoiar a criatividade, e não substituir a autenticidade.

Um exemplo prático desse debate pode ser observado no setor de alimentação. Nos últimos meses, consumidores passaram a denunciar restaurantes que utilizam imagens geradas por inteligência artificial para ilustrar pratos em aplicativos de entrega e redes sociais. Em muitos casos, a comida recebida é muito diferente da apresentada nas imagens, gerando frustração, reclamações e desgaste para a reputação das empresas. O episódio evidencia que o uso da IA pode atrair a atenção do público, mas também comprometer a confiança quando cria expectativas irreais.

Outro aspecto estudado pela psicologia é o chamado “vale da estranheza” (Uncanny Valley), fenômeno que descreve a sensação de desconforto provocada por imagens, rostos ou personagens que se parecem muito com seres humanos, mas apresentam pequenas imperfeições que denunciam sua artificialidade. Em vez de gerar identificação, esse excesso de realismo pode despertar desconfiança, repulsa e até medo, tornando a comunicação menos eficaz.

Para o diretor da Alliance Produções, Matheus Farias, o futuro da comunicação não está em escolher entre inteligência artificial ou produção audiovisual tradicional, mas em saber equilibrar as duas estratégias.

“A inteligência artificial chegou para ampliar possibilidades e tornar processos mais eficientes, mas nenhuma tecnologia substitui a autenticidade de uma marca. As pessoas continuam se conectando com histórias reais, com rostos verdadeiros e com emoções genuínas. A IA deve ser utilizada para potencializar a criatividade, otimizar etapas da produção e enriquecer campanhas, sempre respeitando a identidade da empresa e deixando claro quando determinado conteúdo é gerado artificialmente. Quando a tecnologia cria expectativas irreais ou tenta substituir completamente a presença humana, a marca corre o risco de perder justamente seu maior ativo: a confiança.”

Na prática, especialistas recomendam que empresas utilizem a IA para acelerar roteiros, criar conceitos visuais, produzir animações, simulações, versões em outros idiomas e otimizar a pós-produção. Já conteúdos institucionais, depoimentos de clientes, apresentação de líderes, campanhas de posicionamento e vídeos que exigem proximidade emocional tendem a gerar resultados mais consistentes quando contam com pessoas reais.

Para quem trabalha com branding, o desafio dos próximos anos será encontrar o equilíbrio entre inovação e credibilidade. Mais do que impressionar pela tecnologia, as marcas precisarão demonstrar coerência, transparência e responsabilidade no uso da inteligência artificial.

Nesse novo cenário, a IA deixa de ser apenas uma tendência e passa a ser uma ferramenta estratégica. O diferencial competitivo, porém, continuará sendo a capacidade das empresas de preservar aquilo que nenhuma tecnologia consegue reproduzir integralmente: a confiança construída por relações humanas autênticas.

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